Os mil pássaros de Sadako – I

Eleanor Coerr

Les mille oiseaux de Sadako

Toulouse, Éditions Milan, 2003

Tradução e adaptação

 

Os mil pássaros de Sadako

Prólogo

O livro Os Mil Pássaros de Sadako é baseado na vida de uma menina que viveu no Japão de 1943 a 1955.

Sadako morava em Hiroshima quando a aviação americana largou uma bomba atómica sobre a cidade. Morreu dez anos depois, devido às radiações emitidas pela bomba.

Graças à sua coragem, Sadako tornou-se uma heroína para todas as crianças japonesas. Esta é a sua história.

Um dia de sorte

Sadako tinha nascido para correr. A mãe gostava de dizer que Sadako sabia correr mesmo antes de saber andar…

Nessa manhã de Agosto de 1954, no Japão, mal Sadako acabou de se vestir, desatou a correr para a rua. O sol nascente fazia realçar os reflexos de cobre dos seus cabelos pretos. Nenhuma nuvem escurecia o céu azul. «É bom sinal», disse para consigo Sadako, que estava atenta ao menor presságio.

De regresso a casa, viu que os irmãos ainda dormiam, deitados nos seus pequenos colchões. Sacudiu Masahiro, o irmão mais velho:

— Levanta-te, preguiçoso, é o Dia da Paz!

Masahiro resmungou e bocejou. Como qualquer rapaz de catorze anos, gostava de se levantar tarde. Só que a fome já apertava e da cozinha vinha um delicioso aroma de sopa de peixe. Masahiro levantou-se, seguido de Mitsue e Eiji.

Sadako ajudou Eiji a vestir-se. Eiji tinha seis anos mas, às vezes, ainda perdia uma meia ou a camisola interior. Em seguida, ajudada pela irmã, Mitsue, Sadako dobrou os colchões e arrumou-os no armário. Entrou depois na cozinha, como se fosse um turbilhão, e disse à mãe:

— Mamã, estou tão impaciente por ir ao carnaval! Será que poderíamos tomar o pequeno-almoço mais cedo?

A mãe de Sadako estava a cortar cuidadosamente rabanetes marinados, para servir com o arroz e a sopa. Lançou-lhe um olhar severo e ralhou com ela:

— Tens onze anos, minha filha. Na tua idade, já não devias chamar “carnaval” a este dia de recolhimento. Todos os anos, a 6 de Agosto, celebramos a memória daqueles que morreram quando a bomba atómica foi lançada sobre a nossa cidade.

O senhor Sasaki entrou pela porta das traseiras e secundou o que dissera a esposa:

— É verdade. Tens de mostrar respeito. A tua avó foi morta nesse dia funesto.

Sadako protestou:

— Mas eu respeito a avó. Rezo por ela todas as manhãs. Só que hoje estou tão contente…

O pai interrompeu-a:

— A propósito, é tempo de fazermos as nossas orações.

A família Sasaki reuniu-se em torno do pequeno altar onde se encontrava a fotografia da avó, colocada numa moldura dourada. Sadako ergueu os olhos para o tecto e perguntou-se se o espírito da avó estaria a pairar sobre eles.

O pai interpelou-a:

— Sadako!

A rapariga baixou a cabeça imediatamente. Dançou com os dedos do pé enquanto o pai rezava em voz alta. O senhor Sasaki pediu que o espírito dos seus antepassados estivesse em paz. Agradeceu o salão de cabeleireiro e os filhos maravilhosos que tinha. Rezou para que a leucemia, a chamada “doença da bomba”, não afectasse a família.

Muitos Japoneses ainda morriam devido a esta doença, embora a bomba tivesse sido lançada nove anos antes. A atmosfera tinha ficado saturada de radiações, e as pessoas, como que envenenadas para o resto das suas vidas.

Ao pequeno-almoço, Sadako engoliu a sopa e o arroz. Masahiro falou de raparigas que pareciam dragões esfomeados, mas a irmã nem o ouviu. Estava a pensar no que se tinha passado no ano anterior: os banhos de multidão, a música, o fogo de artifício. Ainda sentia o gosto do algodão-doce na boca.

Foi a primeira a acabar o pequeno-almoço e quase virou a mesa ao levantar-se. Era alta para a idade e as suas pernas compridas atravessavam-se no seu caminho.

— Anda lá, Mitsue, ajuda-me a lavar a louça, para podermos sair mais depressa.

Depois da cozinha limpa e arrumada, Sadako atou fitas vermelhas à ponta das suas tranças e saltitou junto à porta da entrada.

A mãe disse-lhe, num tom gentil:

— Sadako, só saímos às sete e meia. Senta-te e espera, sossegada, que estejamos todos prontos.

Sadako sentou-se na esteira. Os pais nunca estavam com pressa! De repente, uma aranha aveludada atravessou a sala. Era um bom presságio. Sadako tinha a certeza de que aquele ia ser um dia fantástico. Colocou a aranha na palma da mão e deitou-a fora com cuidado.

— Digam o que disserem, as aranhas nunca deram sorte! — disse Masahiro.

— É o que veremos! — respondeu-lhe Sadako, alegremente.

O Dia da Paz

A família Sasaki pôs-se a caminho. O dia estava quente e as ruas encontravam-se cheias de gente e de pó. Sadako correu ao encontro de Chizuko, a sua melhor amiga. Conheciam-se desde o infantário. Sadako sentia que iriam ser sempre muito boas amigas.

Chizuko fez-lhe sinal e aproximou-se, sem pressa. Sadako suspirou. Se ao menos a amiga fosse mais rápida.

— Que tartaruga! Despacha-te ou vamos perder tudo!

— Sadako, anda mais devagar por causa do calor — avisou a mãe.

Mas as raparigas já estavam no fim da rua. A senhora Sasaki franziu o sobrolho.

— A Sadako tem sempre tanta pressa que nunca pára para me ouvir.

— Já a viste caminhar, se podia correr, andar a pé coxinho, ou aos saltos? — perguntou-lhe o marido, orgulhoso da filha, que conseguia correr tão longe e tão depressa.

À entrada do Parque da Paz, as pessoas, em silêncio, fizeram fila indiana. Nas paredes do monumento aos mortos estavam expostas fotografias das vítimas, tiradas um pouco por toda a cidade devastada. A bomba atómica, também chamada “bola de luz”, transformara Hiroshima num deserto.

Sadako recusou-se a ver aquelas imagens assustadoras. Atravessou o edifício, apertando com força a mão de Chizuko.

— Lembro-me da “bola de luz” — murmurou Sadako ao ouvido da amiga. O céu parecia iluminado por mil sóis. O calor trespassou-me como se mil agulhas estivessem a espetar-me!

— Mas tu não passavas de um bebé! Como podes lembrar-te? — perguntou Chizuko.

— Claro que me lembro! — teimou Sadako.

Os sacerdotes budistas e o Presidente da Câmara pronunciaram discursos e depois alguém soltou centenas de pombas brancas, que fizeram um círculo em roda do templo de Genbaku. Para Sadako, estas pombas simbolizavam as almas dos mortos a elevarem-se, livres, no céu. Logo que as cerimónias acabaram, Sadako encaminhou a família para a senhora que vendia algodão-doce. A guloseima ainda sabia melhor do que no ano passado. O dia passou depressa, como sempre! Sadako observou tudo o que estava exposto nas prateleiras e cheirou a comida deliciosa. Havia lojas que vendiam de tudo, desde bolos de soja a grilos.

Seria tudo perfeito se não tivesse de se cruzar com pessoas cheias de cicatrizes esbranquiçadas. Tinham ficado tão queimadas pela bomba que já quase não tinham aparência humana. Sadako não pôde impedir-se de virar a cara à primeira que se aproximou dela.

O barulho da multidão aumentava à medida que a noite caía. Logo que o brilho do último fogo de artifício se esbateu no céu, a multidão dirigiu-se para o rio Ohta com lanternas de papel na mão. O senhor Sasaki tivera o cuidado de acender as velas no interior dos seis lampiões, um para cada membro da família. As lanternas ostentavam os nomes dos familiares mortos pela “bola de luz”. Sadako escolheu pôr o nome da avó na sua. Quando todas as chamas iluminaram a margem, cada um depôs a sua lanterna no rio Ohta, que as conduziria ao mar, como se fossem milhares de pirilampos a flutuar nas águas escuras.

Nessa noite, Sadako demorou a adormecer. Tentou lembrar-se de tudo o que se tinha passado durante o dia. Afinal, Masahiro estava errado. No dia seguinte, Sadako iria dizer ao irmão que a aranha lhe tinha dado sorte.

Continuação: O segredo de Sadako

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