Os mil pássaros de Sadako – III

Capítulo anterior: O segredo de Sadako 

Um segredo desvendado

Durante várias semanas, as orações e os sinais de bom augúrio pareciam surtir efeito. Sadako sentia-se bem e corria cada vez mais longe e mais depressa.

Mas o seu sonho terminou num dia de Fevereiro, frio e cruel. Sadako estava a correr no recreio da escola quando, de repente, começou a ver tudo à roda e caiu ao chão. Um professor precipitou-se para a ajudar.

— Penso…penso que estou um pouco cansada — disse-lhe Sadako, com uma voz fraca.

Quando tentou levantar-se, as pernas tremeram e cederam. O professor pediu a Mitsue que fosse para casa e prevenisse o senhor Sasaki.

Este fechou imediatamente o salão de cabeleireiro e levou a filha ao hospital da Cruz Vermelha. Ao entrar no hospital, Sadako sentiu muito medo. Uma parte do edifício era reservada às pessoas que sofriam da doença da bomba.

Alguns minutos mais tarde, Sadako foi admitida: uma enfermeira fez-lhe uma radiografia aos pulmões e tirou-lhe sangue para análise. O Dr. Numata examinou-lhe as costas e fez-lhe várias perguntas. Três outros médicos vieram também examiná-la. Um deles sacudiu a cabeça e passou-lhe a mão pelos cabelos.

Toda a família de Sadako foi visitá-la. Os pais falavam com o médico em voz baixa. De repente, a senhora Sasaki exclamou:

— Uma leucemia! Não pode ser!

Mal ouviu aquela palavra aterradora, Sadako tapou os ouvidos. Como podia ela sofrer da doença, se a bomba nem lhe tocara? Uma enfermeira, a senhora Yasunaga, acompanhou-a ao quarto e deu-lhe uma espécie de quimono feito de algodão. Mal Sadako se deitou, a família entrou no quarto.

A senhora Sasaki abraçou a filha.

— Tens de ficar aqui durante algum tempo — disse-lhe, num tom de voz que se esforçava por ser alegre. — Virei ver-te todas as noites.

— Nós… nós vimos depois da escola — prometeu Masahiro.

Assustados, Mitsue e Eiji assentiram.

— É verdade que tenho a doença da bomba? — perguntou Sadako ao pai.

O olhar do senhor Sasaki toldou-se, mas tranquilizou a filha:

— Os médicos querem fazer exames suplementares, é tudo! Penso que terás de ficar aqui duas ou três semanas.

Duas ou três semanas! Mas isso era uma eternidade. Já não iam aceitá-la no colégio. Pior ainda: já não ia poder fazer parte da equipa de estafetas. Com um nó na garganta, Sadako reteve as lágrimas.

A senhora Sasaki sacudiu as almofadas e ajustou a coberta. O pai tossicou.

— Precisas…precisas de alguma coisa?

Sadako abanou a cabeça. Do que ela precisava era de regressar a casa. Mas quando? Sente um nó no estômago. Ouviu dizer que muitas das pessoas que eram internadas nunca regressavam a casa.

A senhora Yasunaga disse que Sadako tinha de descansar e que a hora das visitas terminara. Depois de todos se irem embora, a menina enfiou a cara na almofada e chorou. Nunca se tinha sentido tão só e infeliz na vida.

A grua dourada

Na manhã seguinte, Sadako despertou devagar. Tentou ouvir os barulhos habituais da casa: a mãe a preparar o pequeno almoço…mas só lhe chegaram aos ouvidos os sons novos e diferentes do hospital. Suspirou fundo. Tinha desejado tanto que a véspera não tivesse passado de um sonho mau. Mas a chegada da senhora Yasunaga obrigou-a a encarar a realidade. Vinha dar-lhe a primeira injecção.

— As injecções fazem parte da vida no hospital — cantarolou a enfermeira roliça. — Tens de te habituar.

— Eu quero é ficar boa…para poder regressar a casa.

De tarde, Sadako recebeu a sua primeira visita: Chizuko. A amiga sorria misteriosamente e trazia algo escondido atrás das costas.

— Fecha os olhos — pediu Chizuko. Sadako obedeceu prontamente. A amiga colocou algumas folhas de papel e um par de tesouras em cima da cama.

— Já podes abri-los.

— O que é?

Chizuko sorria. Estava muito contente com a surpresa que acabava de fazer à amiga.

— Pensei muito naquilo que te faria sentir melhor — disse com orgulho. — Olha!

Cortou um grande quadrado de papel dourado e, depois de o dobrar algumas vezes, mostrou o pássaro magnífico que tinha feito: era uma grua.

— Mas como posso melhorar com um origami? — inquiriu Sadako, perplexa.

— Não te lembras da lenda das gruas? — perguntou-lhe Chizuko. — Diz-‑se que vivem mil anos. Se uma pessoa doente fizer mil, os deuses escutarão as suas preces e curá-la-ão.

Estendeu a grua à amiga.

— Ofereço-te a primeira.

Os olhos de Sadako encheram-se de lágrimas. Chizuko era tão gentil em lhe oferecer este talismã, logo ela que não acreditava em augúrios. Sadako pegou na grua dourada e formulou um desejo. Experimentou uma sensação esquisita no momento em que tocou no pássaro: devia ser um bom sinal!

— Obrigada, Chizuko. Nunca hei-de separar-me dela.

Sadako tentou fazer um pássaro, mas não era tão fácil quanto parecia. Chizuko explicou-lhe as partes difíceis. Em cima da mesa-de-cabeceira, ao lado da grua dourada, Sadako colocou os primeiros dez pássaros que fez. Não eram todos perfeitos, mas para começar…

— Já só faltam novecentos e noventa — disse Sadako.

Sentia-se bem com a grua-talismã junto dela. Dentro de algumas semanas, já teria certamente feito mil. Nessa altura, estaria pronta para regressar a casa.

Nessa tarde, Masahiro trouxe-lhe os deveres da escola. Quando viu todos os origami, exclamou:

— Mas estes pássaros estão a ocupar espaço demais. Deixa-me pendurá-‑los no tecto.

Sadako sorriu abertamente.

— Prometes que penduras todos os que eu fizer?

Masahiro prometeu.

— Muito bem! — disse Sadako, com os olhos a brilhar de malandrice. — Então vais ter de pendurar mil!

— Mil? Estás a brincar, espero — resmungou o irmão.

Sadako contou-lhe a lenda das mil gruas. Masahiro coçou a cabeça.

— Enganaste-me bem — disse, fazendo uma careta. — Mas vou cumprir a minha promessa.

Pediu fio e tachas à enfermeira e pendurou os primeiros pássaros. A grua dourada continuava na mesa-de-cabeceira. Quando a senhora Sasaki chegou, acompanhada de Mitsue e de Eiji, ficaram os três surpreendidos ao ver os pássaros no tecto. A mãe lembrou-se de um velho poema:

 

Em papel colorido
Aves entraram voando
Na nossa casa.

Mitsue e Eiji gostavam mais do pássaro dourado. A mãe escolheu o mais pequeno, feito em papel verde com guarda-sóis cor-de-rosa.

— Escolho este porque os mais pequenos são os mais difíceis de fazer.

Depois das visitas saírem, os doentes sentiam-se muito sozinhos no hospital. Para se manter ocupada e optimista, Sadako fez mais alguns pássaros.

Onze…Vou ficar boa depressa…

Doze…Vou ficar boa depressa…

Continuação:Kenji

1 Comentário

  1. andressa disse,

    Novembro 24, 2009 às 7:09 pm

    eu amei essa historia ela me dexo muito triste e feliz
    amei a lenda !!!!!!bjjjjjjjjjj


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