Livre

Livre

 

 

Muitos jovens, como este rapaz, saíram para a guerra ou para um campo de concentração, e voltaram um dia a casa.

A porta acinzentada abriu-se. Velha, consumida, a cara da tia.

— Vieste.

Envolveu-o num abraço dorido.

O corredor, como dantes, com pouca luz. O bengaleiro pesadão. Como dantes, e, no entanto, diferente. Como alguma coisa com que sonhara.

— Entra, rapaz!

A voz da velha era dolorosa como o fora o seu abraço.

Parecia um estranho a olhar a passadeira de oleado às riscas. Também o cheiro da casa era adocicado como fruta demasiado amadurecida.

Entreaberta, a porta do quarto que fora o seu. Há séculos.

Abriu-a para trás com um empurrão do pé.

Encostado à ombreira contemplou o lugar dos sonhos da infância, da revolta do adolescente, das leituras nocturnas, dos segredos. Nada mudara. O chão limpo, o tapete de bordados, a cama de pau-castanho, o candeeiro na mesa-de-cabeceira, o cinzeiro, a estante de livros. E viu-se a tirar de lá livros. Viu a mãe de cara aflita, o pai a levar os livros para o fogão da cozinha.

— Queres descansar?

A voz lúgubre da tia fê-lo estremecer.

— Não, não quero.

A cara dela era o espelho no qual se viu a si próprio: «Estás tão magro, não pareces o mesmo. Estás velho, apesar de seres jovem. Os teus olhos trazem ódio».

Não passou o limiar da porta. Encaminhou-se para o fundo do corredor. Parou em frente do quarto dos pais. Tinham morrido. Quem lho dissera fora o abraço dorido da tia.

— Conta lá, tia.

As suas próprias palavras pareciam-lhe de outrem, virem de uma grande distância.

— A tua mãe ficou com a saúde abalada desde o dia em que te vieram buscar. Pouco depois, levaram o teu pai e nunca mais tivemos notícias dele. Ela não resistiu a tanto. Morreu ali, naquela cama. Falou em ti até ao último suspiro. Se tivesse adivinhado que tu voltarias…

Atravessou a sala de jantar. O mesmo número de cadeiras que dantes: o lugar da mãe, o do pai, o seu.

— Passaram-se seis anos desde que te vieram buscar…

Seis anos? Como é que seis anos podem ser uma vida! Uma vida que separa o passado do presente por um abismo de sofrimento e ódio?

Tudo limpo, brilhante, arrumado. Para quê?

A sala de estar. Fria por falta de uso. Por detrás da janela, o carvalho, o permanente encanto da mãe. O sofá, a mesinha redonda, a cadeira de espaldar, as cortinas de croché.

O piano. Tudo esperou por ele. Até o abre-cartas de prata em cima da secretária. Tudo esperou.

Nesta cadeira a mãe costurava. Mais além o lugar do pai. Neste cinzeiro o pai pousava o seu cachimbo. O cenário do passado conservado com uma frieza mortal. Um palco abandonado pelos actores.

Aproximou-se do piano. Afastou o xaile de franjas. Levantou a tampa.

Os mortos contemplavam-no.

Um suor frio cobre-lhe a testa. Sentado em frente do piano, as mãos sobre os joelhos, os olhos cansados nos silenciosos antepassados de sempre.

Onde acaba o passado? Onde começa o presente?

No corredor, arrastam-se os passos da velha tia.

Ergue a mão. Fá-lo tocar um acorde hesitante, tímido, que aviva por instantes o cenário de tempos idos.

Depois caem-lhe os braços sobre o teclado. Uma desarmonia geme no espaço.

Enterra a cabeça nos braços e rompe em soluços.

Ilse Losa

 

Manuela Fonseca e outros (org.)

Lá longe, a paz

Porto, Edições Afrontamento, 2001

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