Olhar o inimigo de frente
Conto americano
Eis uma técnica de paz que resultava com uma mãe em Indiana. A filha conta:
Tenho duas irmãs mais novas. Se alguma de nós se envolvesse numa luta enquanto brincávamos, a minha mãe resolvia o conflito da seguinte forma:
Ordenava que as duas adversárias se sentassem frente a frente em duas cadeiras, separadas apenas por alguns centímetros. “Têm de olhar uma para a outra durante cinco minutos”, ordenava a minha mãe, e certificava-se de que o fazíamos ficando junto de nós. Às vezes, dizia “Jennifer, olha para a tua irmã”, naquele tom de voz de uma mãe que não admite desafios. Com a expressão cerrada, lançávamos um olhar gelado aos braços cruzados da outra. “Olha para a cara dela. Olha-a nos olhos”, ordenava a minha mãe. Obedecíamos-lhe a contra–gosto, tentando manter os nossos olhares carrancudos, tentando não rir da expressão hilariante que se formara na cara da outra. É claro que estes esforços resultavam em trejeitos ainda mais hilariantes, o que tornava impossível não nos rirmos uma da outra. De repente, sem nos darmos conta, já estávamos a rir em voz alta, de nós mesmas e da outra. A nossa juíza severa sorria e tentava ela mesma não desatar a rir. “Podem ir agora”, dizia, da forma mais solene que podia, e ia para a cozinha, rir sozinha, enquanto nós voltávamos à brincadeira.
Nunca tivemos de ficar sentadas durante os cinco minutos por inteiro.
Acredito que esta abordagem não resulta com todos os conflitos. Lembro-me de que havia ocasiões em que éramos punidas, sobretudo se tínhamos magoado uma irmã fisicamente. Mas lembro-me de me torcer naquela cadeira, de tentar continuar zangada e de ver que não podia fazê-lo, se de facto olhasse de frente a pessoa com quem estava zangada.
Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005